Suposta vítima do Jornalista David Diogo concede entrevista ao jornal “O Crime”

Em entrevista ao jornal “O Crime”, Domingas Kamia Francisco de 17 anos, supostamente estuprada pelo jornalista da TV Zimbo, David Diogo, conta detalhadamente como tudo aconteceu.

Em casa da suposta vítima, o jornalista do jornal “O Crime” teve a liberdade de entrevistar a mesma, a conversa foi longa e a suposta lesada contou a sua versão da história.

“O Crime — Como te chamas?
KF — Sou a Domingas Kamia Francisco e tenho 17 anos.

O Crime – Com quem vives?
KF – Vivo com os meus pais e irmãos.

O Crime — Que fazes?
KF — Sou estudante de Enfermagem, 10.ª classe.

O Crime — Quando é que saiu de casa e para onde ias?
KF – Saí de casa na terça-feira, dia 23, às 10 horas. Estava a caminho do Kwanza Sul, para visitar a minha irmã gémea.

O Crime — Deste a conhecer aos teus pais onde, quando e por que ias?
KF — Não! Preferi não dizer nada porque o pai não havia de permitir, também por conta da cerca sanitária imposta a Luanda.

O Crime — Como foi que chegaste até ao Cabo-Ledo, uma vez que, segundo apuramos, estavas sem dinheiro para o transporte?
KF — Fui até à paragem de táxis da Vila do Gamek e ali fiquei um tempo, sem saber o que fazer. Pouco tempo depois, apareceu um camionista que se prontificou em levar-me. Assim que se apercebeu que eu parecia completamente angustiada e confusa, aproximou-se e perguntou-me para onde eu queria ir — eu disse-lhe que precisava passar a cerca sanitária e chegar até à província do Kwanza Sul para ver a minha irmã. Daí, ele levou-me até ao Cabo-Ledo, junto do controlo da cerca.

O Crime — Quanto tempo levou até aparecer o camionista?
KF — Aproximadamente uma hora.

O Crime – Já conhecias o camionista?
KF — Não. Não conhecia de lugar nenhum.

O Crime — Não tiveste receio de ir com o senhor, uma vez que não o conhecias?
KF — Não. Porque estava bastante confusa e ele foi a única pessoa que me ajudou.

O Crime — Quanto tempo durou a viajem até ao Cabo-Ledo?
KF — Não consigo precisar. Lembro-me, apenas, de que chegamos lá por volta das 21 horas.

O Crime — O camionista fez alguma paragem antes de chegarem ao cabo-Ledo?
KF — Sim. Paramos num posto de abastecimento.

O Crime — Postos no Cabo-Ledo, o que aconteceu depois?
KF — Fomos impedidos de atravessar a cerca. E assim que os agentes da Polícia se aperceberam da nossa presença ali, mandaram-me voltar para casa. Mas, como já era tarde, tive que pernoitar aí mesmo — ao relento.

O Crime — Por que ao relento, se podia passar a noite no camião que te lavara até aquele lugar?
KF — Não sei por que, mas o camionista recusou-se em colocar-me dentro do camião.

O Crime — O que aconteceu no dia seguinte?
KF – Já no dia seguinte, veio ter comigo um agente da Polícia, que me pediu o terminal dos meus pais, mas eu não o tinha. A seguir, dei o meu Facebook ao mesmo agente para ajudar a localizar a minha família – e ele ficou de comunicar à minha família.

O Crime – O que fizeste a seguir, enquanto aguardavas pela resposta do agente da Polícia?
KF – Continuei na rua, sentada, até que apareceu um jovem, apenas identificado por Toy, a dizer que o seu tio, o David Diogo, jornalista da TV Zimbo, estava a chamar-me. Perguntou se eu conhecia o jornalista e eu disse que não.

O Crime – O que fizeste a seguir?
KF – Fui com o jovem, mas não aonde o mesmo (David Diogo) estava, sentado junto a uma cantina. Pelo contrário, fui com o mesmo jovem até a uma outra cantina, aí ao lado, onde me mandou aguardar. Mas como ele demorava muito, saí e voltei até onde estivera anteriormente, junto de umas zungueiras. Minutos depois, apareceu um outro jovem a dizer que o senhor David estava a chamar-me – disse para eu ir à vontade, e fui com ele.

O Crime – Já conhecias o senhor David Diogo de algum lugar?
KF – Não, foi a primeira vez a vê-lo pessoalmente. Via-o apenas pela televisão.

O Crime – O jornalista que dizes conhecer pela televisão é o mesmo que solicitava a tua presença?
KF – Sim! Fui até à cantina onde ele estava, acompanhado do sobrinho (Toy) e mais um agente da polícia, à paisana, apenas identificado por Hugo – e sim, era ele mesmo (David Diogo), e estava com uma garrafa de Nocal às mãos. Perguntou-me o que se passava e eu disse que precisava chegar à Gabela, para visitar uma irmã, e ele, David Diogo, se prontificou em ajudar-me a atravessar a cerca sanitária.

Aliás, perguntou-me se me fazia acompanhar de um documento de identificação, e eu disse que não – apesar de que estava a andar com o acento de nascimento –, preferi ocultar-lhe esta informação porque não sabia quais eram as suas reais intenções.

O Crime – E o senhor David Diogo, como dizes, conseguiu fazer-te atravessar a cerca?
KF – Não.

O Crime – Por quê?
KF – Porque depois que ele me fez todas aquelas perguntas, regressei aonde estava, e minutos depois veio ter comigo um agente do SME, dizendo que não havia possibilidade de eu passar a cerca e que tinha de regressar à casa. No mesmo instante, veio novamente o senhor David Diogo a dizer que iria levar-me à casa – daí o agente do SME disse a ele (David Diogo): “estou a confiar a menina nas tuas mãos”.

O Crime – Como te apercebeste que o jovem ao seu lado era, de facto, sobrinho do senhor David Diogo?
KF – Ele mesmo (o suposto jovem) afirmou que era o seu tio que chamava por mim.

O Crime – Pode descrevê-lo?
KF – Era um jovem de baixa estatura, escuro e usava calções, t-shirt e chinelos.

O Crime – Foste coagida a subir na viatura do senhor David Diogo?
KF – Não. Depois que o agente do SME disse que me confiava nas mãos do senhor David Diogo e disse ainda que a única solução era eu voltar para casa, porque o comandante não tinha permitido a minha passagem, subi no carro e fomos.

O Crime – Quantas pessoas estavam na viatura?
KF – No carro estavam quatro pessoas: o seu suposto sobrinho, Toy, o suposto agente, Hugo, o senhor David, que ia ao volante, e eu. Já a caminho de Luanda, ao invés de seguir à estrada, desviou o carro e fomos em direcção a uma terra batida. Eu perguntei onde íamos, ele disse que vamos à praia, e assim seguimos.

O Crime – E tu concordaste em ir com eles à praia?
KF – Eu simplesmente fiquei calada e não falei absolutamente nada.

O Crime – O que aconteceu depois?
KF – Postos na praia de Cabo-Ledo, estacionou o carro junto a uma lanchonete onde sentamos todos. Daí pediram bebidas (alcoólicas) para eles, o senhor David perguntou-me se aceitaria beber uma gasosa, mas eu recusei – mas ele insistia que eu bebesse, e acabei por aceitar. Já agastada com a situação, levantei-me e fui sentar no interior da viatura. Entretanto, enquanto chorava, sozinha no interior do carro, o senhor David pediu ao proprietário do estabelecimento que aumentasse o volume da música que ali tocava, e depois foi ao meu encontro no carro, ligou também a música do seu carro e depois subiu os vidros.

O Crime – Que horas eram?
KF – Eram aproximadamente dezoito horas.

O Crime – Chegaste a sofrer alguma ameaça?
KF – Sim. Depois o seu sobrinho entrou, também, no carro, mostrou uma arma e disse que eu tinha de fazer um sacrifício para que nada me acontecesse. De seguida, o jovem retirou-se e ficamos apenas eu e o senhor David, que, a seguir, tirou-me a roupa e forçou-me a ter relações sexuais comigo.

O Crime – Durante quanto tempo terá ele abusado de ti?
KF – Sei que ficamos na viatura das 18 até às 00h.

O Crime – Em algum momento tentou pedir socorro?
KF – Eu gritava e, inclusive, bati várias vezes no carro, mas ninguém veio socorrer-me. Talvez porque a música estava muito alta.

O Crime – Em algum momento você seduziu o senhor?
KF – Não. Fiquei calada durante todo percurso.

O Crime – O senhor David Diogo parecia ou estava bêbado?
KF – Não. Não estava bêbado, pese embora estivesse a beber.

O Crime – Quanto a tua virgindade, ainda a mantinhas até aquele dia?
KF – Sim, até ser estuprada pelo senhor David Diogo.

O Crime – Após o acto, o que aconteceu?
KF – Já por volta da madrugada, depois dele ter abusado de mim, subimos todos na viatura e voltávamos para o bairro onde estamos anteriormente. De longe, o seu sobrinho apercebeu-se que os meus familiares estavam à minha procura e deu um sinal ao tio. Daí, o tio pediu ao sobrinho e ao suposto agente, o Hugo, num ponto estratégico para que fossem a pé. Já só eu e ele, o senhor Diogo tentou trancar-me num contentor para que o meu irmão e os meus pais, que já ali se encontravam não apercebessem que estava com eles.

O Crime – Contaste à Polícia o que havia acontecido contigo?
KF – A princípio fiquei com medo porque ele havia me ameaçado, mas depois o meu irmão chamou-me de lado e disse que eu podia confiar nele e lhe contasse a verdade. E acabei por contar a ele.

O Crime – O seu irmão deu a conhecer à Polícia?
KF – Sim. E neste momento ele, o senhor Diogo ainda estava no local, e a polícia ordenou-o a não se ausentar porque tinha de o confrontar.

O Crime – O aconteceu depois?
KF – A Polícia local ordenou que fôssemos todos à Esquadra da Quiçama. A princípio, o senhor estava a recusar-se em subir na viatura da Polícia, mas depois o comandante daquele posto acabou por sensibilizá-lo e assim fomos. E neste momento ele estava sozinho, o sobrinho e o amigo, suposto agente da polícia, já não estavam com ele.

O Crime – Como é que ele (David Diogo) estava vestido?
KF – Estava de um calção vermelho, camisola interior e chinelos.

O Crime – Qual é a marca e cor da viatura do senhor Diogo?
KF – Era um Land Cruiser, V8, de cor preta.

O Crime – Foi a primeira vez que tentaste viajar sozinha?
KF – Sim. Estava a tentar ir para o Kwanza Sul, Gabela, ver a minha irmã gémea.

O Crime – Como é que estavas vestida?
KF – Estava de uma calça jeans azul e uma blusa.

O Crime – Qual foi a reação do senhor David Diogo quanto às acusações que o fazias?
KF – Ele dizia que sou maluca, que apenas queria prejudicá-lo. Disse ainda que me encontrou na rua, com fome, e ele apenas se predispos a ajudar-me.

O Crime – Como é que te sentes agora?
KF – Sinto-me mal, inclusive sinto dores nos membros e às vezes ficam paralisados. Dói-me também a coluna e os órgãos genitais.

O Crime – Qual é o teu sonho?
KF – Eu queria ser uma oftalmologista e empresária, mas com essa situação a minha mente apagou tudo isso. O que mais desejo nesse momento é me recuperar para voltar a brincar com os meus irmãos, conforme fazíamos”. Explicou Kamia Francisco (KF), que pediu pela justiça pelo suposto ocorrido.